Aqui vai:
Cães sem raça definida e cães de raça não mostram grandes diferenças em termos de agressividade perante estranhos. A raça não é o factor mais importante quando se fala na agressividade baseada na territorialidade de um cão e o Pit Bull nem sequer é listado entre as raças mais agressivas. Foram estas as principais conclusões do um estudo da Universidade de Córdoba.
A agressividade dos cães não depende apenas da raça, mas também da atitude do dono perante o cão. Posta de forma simples, é esta a conclusão do estudo espanhol publicado no Journal of Animal and Veterinary Advances.
A agressividade perante estranhos depende de factores não moldáveis, tais como a raça, a idade e o sexo do cão, e de factores moldáveis tais como, o grau de escolaridade do dono, a aplicação de castigos, tempo de passeio e forma de alimentação.
O estudo liderado por Joaquín Pérez-Guisado envolveu 711 cães (594 puros e 117 sem raça definida) e incluiu animais considerados em Portugal como potencialmente perigosos, o American Pit Bull Terrier e o Rottweiller. Outras raças figuraram também na lista de cães, umas consideradas mais dominantes como o Dobermann, o Boxer ou o Bull Terrier, outras mais dóceis como o Labrador Retriever, o Golden Retriever, o Caniche Miniatura, o Dálmata ou o Chihuahua e ainda o Husky e o Chow Chow. Cada raça tinha no mínimo 4 exemplares e todos os animais tinham mais de 1 ano.
A agressividade do cão foi testada face a 3 situações:
• um estranho aproxima-se do território do animal;
• um estanho aproxima-se de um membro da “família” do cão;
• e um estranho aproxima-se ou tenta entrar no território do dono.
Factores mais importantes que influenciam a agressividade de um cão perante estranhos
Factores não moldáveis
Os factores não moldáveis são algo que intrinsecamente ligado ao cão e que não é afectado pelo ambiente em que ele se insere.
Raça
As raças que se mostraram mais territoriais foram o Presa Canário, o Neapolitan Mastiff, o Rottweiler, o Dobermann, o Mastim Espanhol e o Pastor Alemão. Desta lista, salta a vista o facto de não serem mencionados os cães do tipo Pit Bull, apesar de serem vistos pela sociedade como uma das raças mais perigosas para humanos. Na mesma nota, o Pastor Alemão, tido como uma das raças mais equilibradas e menos perigosas, é pouco menos agressivo que um Rottweiler e um Dobermann.
Curiosamente, não há diferença significativa entre a agressividade média tida pelos cães de raça pura e cães sem raça definida.
Grupos FCI
Segundo o estudo, os cães mais agressivos perante estranhos são os que se enquadram no grupo 1 e 2 da FCI: Cães de Pastor e Boieiros, Cães de tipo Pinscher e Schnauzer, Molossóides e Cães de Montanha. Os menos territoriais foram os cães do grupo 5: Cães Spitz e do Tipo Primitivo.
Sexo
Muita polémica existe em volta do facto de quem dá um melhor guarda: uma cadela ou um cão. Segundo o estudo, os machos mostraram-se mais agressivos do que as fêmeas.
Idade
A idade influencia bastante o nível de agressividade de um cão. Os cães que se mostraram mais territoriais têm entre 3 e 7 anos. Os menos territoriais não são os cachorros, mas sim os cães com mais de 10 anos.
Factores moldáveis
A classificação dos factores moldáveis e não moldáveis pode ser motivo para debate, sobretudo no que diz respeito à ansiedade e vocalização do cão. Mas foi escolhido colocar estes dois grupos nos factores moldáveis, já que o dono através do treino e educação consegue ter alguma influência nestas características do cão.
Ansiedade
Os cães nervosos não se mostraram mais agressivos do que os cães com um nível de ansiedade considerada normal. Estes, ditos “normais”, foram mesmo os que mais agressivos se mostraram perante estranhos. Os cães calmos foram os menos agressivos.
Ladrar
Este estudo veio mostrar que os ditados populares nem sempre são fiáveis. Os testes mostraram que cão que ladra é o que mais morde, enquanto que os cães mais silenciosos foram os menos agressivos. Segundo o veterinário, o ladrar pode por isso ser considerada uma forma usada pelos cães para dissuadir estranhos.
Castigos
Com o advento do treino positivo e a expansão dos direitos dos animais, os castigos físicos começaram a ser questionados por muitos donos de cães. Este estudo mostra que os animais que não são corrigidos fisicamente quando agem de forma incorrecta são de facto os animais mais agressivos para com intrusos. E curiosamente, os menos agressivos foram os que receberam castigos físicos quando agiam incorrectamente. Pérez ressalva contudo que os castigos servem apenas para estabelecer dominância e não resultam com todas as raças. Não devem contudo ser utilizados para infligir grande sofrimento ao animal.
Escolaridade do dono
Paradoxalmente, quanto maior o nível de educação escolar do dono, maior o grau de agressividade do cão. Assim, os cães mais agressivos pertenciam a dono licenciados e os menos agressivos a donos sem escolaridade.
Tempo passado pelo cão a comer
Os cães com comida à disposição mostraram ser mais agressivos perante estranhos do que os cães com horários definidos para comer e quantidades limitadas.
Tempo de passeio do cão
Os cães mais agressivos para com estranhos não eram passeados pelos donos regularmente. Os cães que passeavam mais de 120 minutos por dia, mostraram ser muito pouco agressivos.
Tarefa
Os cães que foram adquiridos com o propósito de guarda mostraram ser os cães mais territoriais, enquanto que os cães cujo trabalho era tracção foram os menos. Os cães comprados para companhia encontram-se no meio da tabela. Os animais que foram adquiridos para oferecer como presente, encontram-se em quarto lugar, depois dos cães comprados para defesa e caça. O investigador ressalva que por serem comprados com o objectivo de guarda, o dono provavelmente promove a agressividade do animal para com estranhos.
Jogos
Os cães que tinham como jogo preferido, jogos de tracção, Tug-of-war, por exemplo, mostraram-se mais agressivos perante estranhos. Os cães sem jogos preferidos mostraram-se menos territoriais.
Numa nota positiva, Pérez refere que os cães educados correctamente não exibem comportamentos agressivos, exceptuando casos de ordem clínica que podem causar alterações comportamentais.
O estudo pode ser consultado em inglês em http://www.medwelljournals.com/fulltext ... 2-1418.pdf
